sábado, 6 de agosto de 2016

Rio celebra a diversidade e passa mensagem de esperança na abertura dos Jogos no Maracanã


RIO — Uma nação formada por diferentes povos, crenças e ritmos deu ao mundo nesta sexta-feira sua mensagem de esperança. Na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, o Brasil esqueceu momentaneamente seus problemas para apresentar uma festa extremamente sólida, emocionante em alguns instantes e memorável em outros, sempre apoiada na formação cultural do país. Os organizadores compensaram o orçamento reduzido com criatividade e dois temas atuais em todo o mundo: a aceitação das diferenças e a preocupação ambiental.

Com quase quatro horas de duração, a cerimônia teve artistas como Paulinho da Viola, Elza Soares, Jorge Ben Jor, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Anitta, além de um desfile inspiradíssimo de Gisele Bündchen ao som de “Garota de Ipanema”, até que a pira olímpica fosse acesa pelo corredor Vanderlei Cordeiro de Lima. Às 23h27m, o presidente interino Michel Temer declarou abertos os Jogos, sendo vaiado pela plateia.

Milhões de anos de história foram narrados nos primeiros 50 minutos da cerimônia. Exatamente às 20h, a festa começou ao som de “Aquele abraço”, em gravação de Luiz Melodia, com imagens aéreas de gente praticando esportes por todo o Rio exibidas no telão do Maracanã. A proposta se integrou bem a um recurso que logo em seguida passaria a ser utilizado na cerimônia: a projeção em vídeo, sobre tapumes brancos que preencheram o gramado do estádio, dos cenários da dramatização planejada pelos diretores artísticos Fernando Meirelles, Daniela Thomas e Andrucha Waddington.

Logo em seguida, grandes travesseiros metálicos foram movimentados por bailarinos espalhados pelo estádio, formando ondas do mar. A contagem regressiva foi feita com números projetados, como se caíssem na água, até aparecer o símbolo universal da paz, transformado numa árvore pela arte do cartunista Ziraldo.

Às 20h06m, o alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, foi anunciado e aplaudido, mas nem de perto celebrado como foi Paulinho da Viola numa impactante interpretação do Hino Nacional. Vestido com blazer e calça azuis, a cor símbolo de sua Portela, sentado num banquinho com um violão nas mãos, Paulinho fez ouvir o brado retumbante enquanto a Bandeira do Brasil era hasteada.



O mar, então, voltou a tomar o Maracanã, numa representação do início de tudo, a criação da vida no território brasileiro. Bailarinos empurraram estruturas metálicas em formato de microrganismos, até o surgimento da terra e do verde da floresta. Num dos momentos mais bonitos de toda a cerimônia, uma rede de elásticos surgiu pendurada por hastes horizontais, para que fosse manipulada por artistas do solo.

Ao balé de elásticos, juntaram-se artistas do Festival Parintins, do Amazonas, para representar os índios. A partir daí, os diversos povos que ao longo de séculos formaram o Brasil foram se reunindo, mudando a paisagem do Maracanã. Os exploradores portugueses, os escravos africanos e os imigrantes japoneses criaram um país agrário, mostrado através das projeções em vídeo como plantações vistas do céu.

Da nação rural à urbana, prédios foram “erguidos” em vídeo no centro do estádio, com direito a dançarinos pulando de um terraço ao outro. Já numa lateral, uma estrutura metálica vertical foi instalada no Maracanã, onde bailarinos coreografados por Deborah Colker puderam mostrar um pouco da ginga nacional. “Construção”, de Chico Buarque, foi tocada em versão instrumental, pouco antes de o avião 14 Bis, pilotado por um homem vestido como Santos Dumont, simplesmente decolar do Maracanã. O Brasil das belezas foi também o Brasil da invenção.

Àquela altura da festa, a miscigenação já estava clara. Faltava exibir suas manifestações culturais. Daniel Jobim interpretou seu pai, Tom Jobim, ao cantar “Garota de Ipanema”, para que Gisele Bündchen aparecesse de vestido prateado e desfilasse sozinha e imponente, sobre projeções de traços de Oscar Niemeyer. A modelo, a música, a festa, tudo foi ovacionado.

Foi um bom momento para começar o baile. Como o mar havia virado floresta, os prédios se transformaram em favelas. Ludmilla mostrou que o pobre tem seu lugar cantando o “Rap da felicidade” para o mundo. Dançarinos apareceram com roupas coloridas para mostrar um Brasil do remix — nada mais do que uma expressão moderna para a mistura que conhecemos há séculos.

Elza Soares interpretou “Canto de Ossanha”, Zeca Pagodinho e Marcelo D2 vestiram-se de branco como malandros para puxar o coro de “Deixa a vida me levar”, e Karol Conká e MC Soffia cantaram antes da entrada de atores vestidos de bate-bola e de dançarinos de bumba meu boi.

Regina Casé apareceu para resumir a ideia geral: “Chega de briga, a gente está aqui para buscar nossas semelhanças e, principalmente, para celebrar as nossas diferenças”. Foi a deixa para a diversidade total, a deixa para Jorge Ben Jor guiar a festa com “País tropical”, acompanhado por milhares de vozes de vários idiomas no Maracanã.

A primeira parte da cerimônia estava quase encerrada. Mas ainda houve tempo para que se exibissem vídeos mostrando os riscos do aquecimento global no mundo, deixando um viés de esperança: em áudios gravados, as atrizes Fernanda Montenegro e Judi Dench declamaram em português e inglês o poema “A flor e náusea”, de Carlos Drummond de Andrade. Ninguém jamais vai esquecer: “Uma flor nasceu na rua!”.


No final da festa, por volta de 23h45m, Caetano, Gil e Anitta cantaram “Isto aqui o que é?”, de Ary Barroso, acompanhados por um outro desfile, de ritmistas de escolas de samba.