Petrobras reduz investimentos no RN e transforma refinaria em ativo industrial - Blog do Joabson Silva | Opinião e notícia

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10/11/2017

Petrobras reduz investimentos no RN e transforma refinaria em ativo industrial


Uma mudança na gestão da Refinaria Clara Camarão, localizada em Guamaré, município distante cerca de 140 quilômetros de Natal, gerou uma reação política no Rio Grande do Norte, ao longo da última semana. A Petrobras transferiu o equipamento da área de Refino para a área de Exploração e Produção da estatal. Desta forma, a Clara Camarão deixa de ser chamada de refinaria, sendo "rebaixada" a Ativo Industrial de Guamaré, a partir de janeiro do próximo ano. A maior preocupação do estado, porém, continua sendo a redução de investimentos da estatal, que já chegaram a 77%, desde 2009.

A notícia sobre a Clara Camarão pegou de surpresa a classe política e empresarial do estado, que cobrou explicações da Petrobras sobre o assunto. A preocupação, de acordo com os setores, é com a possível redução de investimentos e o desemprego que poderia ser provocado pela mudança, pouco tempo após a refinaria bater recordes de produção. Em agosto, ela produziu 19.841 metros cúbicos de querosene de aviação, superando em 8% o seu recorde anterior.

Pelo menos duas reuniões aconteceram entre senadores, deputados e diretores da companhia. Nesta quarta-feira (8), em uma audiência realizada no Senado, mais explicações foram dadas pelo diretor da Unidade Operacional no RN e no Ceará, Tuerte Amaral Rolim.

De acordo com a Petrobras e com o próprio Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Norte, que cobra retomada de investimentos no estado, a mudança não acarretará uma redução da atividade de refino da Clara Camarão. A planta deverá manter seus níveis de produção de derivados de petróleo, tais como gás natural, gasolina e QAV (combustível de aviação).

A preocupação da administração pública e dos empresários potiguares, porém, é reflexo da importância da Petrobras para o próprio estado. Ela é responsável por cerca de 40% do Valor Bruto de Produção Industrial potiguar. Somente em Guamaré, município onde está localizada a refinaria, cerca de 60% dos impostos colhidos pela administração pública vêm do setor petrolífero, segundo o prefeito Hélio da Fonseca.

Além dos impostos, o município é um dos que mais recebem royalties. Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a cidade recebeu R$ 1.040.516,84 somente em setembro de 2017, totalizando R$ 8.159.930,03 desde janeiro.

"Esses recursos já caíram muito nos últimos anos, mas nos colocam em uma situação confortável em momento de crise no Brasil. Enquanto o estado e muitos municípios estão com dificuldade de pagar funcionalismo, nós estamos em dia e oferecendo bons serviços", considerou o prefeito, que afirma que está preocupado com a mudança, mesmo após uma resposta da Petrobras afirmando que a produção será mantida na refinaria.

"A gente até recebeu essa informação, mas fica uma incerteza sobre o futuro", considera, ressaltando que a população do município (que é de 15.000 pessoas) aumenta em quase 10% somente com o fluxo de pessoas provocado pela refinaria, gerando empregos indiretos em restaurantes, hotéis e outros serviços. Cerca de 25% dos trabalhos formais da cidade têm ligação com a indústria.

"Nada muda"?

Durante uma audiência pública da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo do Senado, realizada na quarta-feira (8), o gerente geral da Unidade Operacional da Petrobras no Rio Grande do Norte e no Ceará, Tuerte Amaral Rolim, garantiu que a companhia vai continuar no estado e o investimento de R$ 800 milhões previsto para 2017, conforme o Plano de Negócios e Gestão da estatal, está mantido.

Ele explicou que a mudança na refinaria, cuja gestão passou para a área de Exploração e Produção, não acarretará demissões, nem diminuição na capacidade de produção de derivados de óleo e gás. “Nada muda nas instalações da RPCC e na operação da Petrobras no Rio Grande do Norte. O que muda é o modelo de gestão. Trabalhávamos com um processo integrado entre duas áreas. Agora, a Petrobras vai colocar a refinaria sob uma única gestão, otimizando a estrutura, reorganizando os processos e tornando o negócio mais eficiente", explicou.

Efetivamente, de acordo com a companhia, a mudança administrativa deverá provocar apenas uma redução nos custos com pessoal. O gerente considerou ainda que a Petrobras mantém uma infraestrutura robusta no estado, responsável pela exploração e produção de petróleo e gás em 66 concessões em terra e 12 no mar, através de 29 plataformas ligadas por dutos submarinos, 5 mil poços e 130 estações de coleta que enviam o óleo e gás para 2 mil quilômetros de oleodutos e gasodutos até o Polo Industrial de Guamaré.

Para o diretor do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Jean-Paul Prates, as explicações da Petrobras foram insuficientes para tranquilizar o estado. O especialista argumenta não faz sentido tirar a refinaria de uma diretoria que está em expansão para colocar no setor em decadência no estado. Jean-Paul lembra que há pelo menos cinco anos a Petrobras vem reduzindo investimentos no estado, na área de exploração, porque os campos terrestres estão maduros e a produção é cada vez mais difícil em terra, enquanto o pré-sal oferece uma produção muito maior.

Para ele, mesmo que a empresa diga que não haverá demissões em curto prazo, não revela um prazo para a manutenção desses empregos a médio e longo prazo. Além disso, considera que, fora da diretoria responsável pelo refino na Petrobras, a estrutura da Clara Camarão corre o risco de ficar fora dos planos estratégicos para investimento em refino, da própria companhia.

"O que deveria ter acontecido era justamente o contrário: todo o pólo de Guamaré deveria ir para a diretoria de refino, com potencial para crescer ainda mais nos próximos anos", critica. Ele ressaltou que a economia com uma gerência é muito irrelevante para uma empresa do porte da Petrobras e só aconteceu no estado e em nenhuma outra refinaria do país.

Prates também afirma que, apesar de considerar o desinvestimento na produção local natural, devido ao longo tempo de exploração no estado, a estatal precisa apresentar à sociedade potiguar o que ela planeja para o Rio Grande do Norte, uma vez que recebeu diversos incentivos públicos e emprega muitas pessoas, que dependem dessa cadeia. "Todos precisam de planejar", pondera.

Desinvestimento

Para o presidente do Sindipetro, José Araújo, a mudança da refinaria para ativo industrial não prejudica em nada o setor, mas o foco da discussão deveria ser outro. "Essa medida não gera desemprego. Os empregos já foram perdidos nos últimos anos - 40 a 60 mil empregos, entre diretos e indiretos, já foram embora. A gente tinha uma média de 13 a 15 trabalhadores terceirizados para cada petroleiro no estado, que eram 2 mil. Agora temos uma média de dois para um. Cerca de 1800 petroleiros e uma média de dois terceirizados", afirma.

Somente uma empresa potiguar que oferecia mão de obra terceirizada para a Petrobras reduziu de 7,5 mil para pouco mais de 50 o número de funcionários.

De 2009 a 2017, de acordo com ele, a Petrobras reduziu de US$ 900 milhões para cerca de US$ 200 milhões o volume de investimentos no estado - uma queda de 77%. O que a empresa chama de desinvestimento dentro do plano de recuperação financeira, o sindicalista considera como uma política de entrega do setor para "o mercado internacional".

A Refinaria Clara Camarão tem capacidade de processar 45 mil barris de petróleo por dia. A capacidade de produção atual do estado é de 48 mil barris, ou 52 mil, quando somada a produção do Ceará. A meta, de acordo com o Sindipetro, era chegar à média de 65 mil barris. Mas a empresa reduziu investimentos no estado e busca vender parte da produção em terra.

Com isso, as operações estão abaixo da capacidade, segundo José Araújo. De acordo com ele, o estado perdeu 15% da produção média diária em um ano, apesar de ter muita viabilidade econômica. "Ao longo de 40 anos, foram tirados 1 bilhão de barris de petróleo do nosso solo. É muito, mas ainda há estimativa de que haja de três a seis bilhões de petróleo - uma produção para, no mínimo, mais 100 anos", pondera.

"As operações no RN são viáveis e lucrativas. O que nós queremos é que o lucro que o estado dá seja revertido em investimento no estado e não no pré-sal", concluiu.