Crítica diz que filme sobre Edir Macedo, fundador da Universal, quer “fabricar um santo” - Blog do Joabson Silva | Opinião e notícia

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31/03/2018

Crítica diz que filme sobre Edir Macedo, fundador da Universal, quer “fabricar um santo”


Por André Miranda

O filme “Nada a perder” segue toda a cartilha daquelas obras que Hollywood adora para construir heróis. O holofote fica em cima de um personagem carismático, com pequenos equívocos em sua trajetória, mas com uma moral elevada. É uma figura perseguida e incompreendida pelos outros, alguém que se sacrifica por um bem maior e que ganha a admiração coletiva por seus feitos grandiosos.

Mas “Nada a perder”, do diretor Alexandre Avancini, não quer simplesmente mostrar um herói. A ousadia é maior. O filme tenta, sim, fabricar um santo.

O estranho é que Edir Macedo (interpretado por Enzo Barone quando criança; José Victor Pires quando jovem; e Petrônio Gontijo quando adulto), o líder da Igreja Universal do Reino de Deus, é tanto o protagonista de “Nada a perder”, quanto seu padrinho. O próprio Macedo surge no final e se dirige a seus fiéis espectadores para fazer uma oração. É como se ele próprio se autodenominasse herói, santo, mártir, redentor, uma espécie de messias que enfrentou todas as dificuldades em nome de ajudar as pessoas. Suas polêmicas? Essas não foram relevantes para a produção.


A história começa com Macedo sendo preso, em 1992, em São Paulo, acusado de charlatanismo e curandeirismo. Dali volta-se ao passado para se narrar desde a infância na cidade fluminense de Rio das Flores (ele sofria bullying!) até o trabalho na igreja de seu cunhado R. R. Soares (vivido por André Gonçalves), a fundação da Universal e a negociação para a compra da TV Record. Há momentos dedicados a mostrar o romantismo de Macedo — num dos primeiros encontros com sua mulher, Ester (Day Mesquita), eles assistem a “Love story” — e outros tantos que valorizam sua generosidade com os pobres e os desabrigados.

Uma cena de exorcismo parece tirada de filmes de terror, enquanto que a sequência do primeiro culto da Universal é mostrada em câmera lenta e com trilha sonora de quem venceu uma guerra. Se o objetivo era mexer com a plateia, “Nada a perder” definitivamente não economizou nada em estilos para despertar sensações.

Os diálogos também buscam fortalecer a ideia de que o protagonista lutou contra as forças que queriam impedir sua revolução espiritual. Num encontro entre um bispo católico, um senador e um ministro, alguém fala: “Vamos usar a mídia para acabar com ele”. Mesmo bispos de outras correntes evangélicas surgem para menosprezar o talento de pregação que o protagonista acreditava ter.

Entre todas essas lembranças de Macedo, o filme repete à exaustão o recurso de utilizar paisagens de Rio ou São Paulo, para intercalar assuntos ou saltar no tempo — uma dessas cenas ostra o Cristo Redentor, estátua cujo uso de imagem em obras comerciais necessita de autorização da Arquidiocese do Rio. “Nada a perder”, contudo, é mais bem dirigido do que algumas dessas produções religiosas recentes. A reconstituição de época e o trabalho com os atores, por exemplo, são cuidadosos, acima da média.

O que atrapalha qualquer avaliação é o ponto de vista. Como personagem de ficção, Edir Macedo é raso. Sua imagem praticamente perfeita aproxima “Nada a perder” de um vídeo de campanha política que serve para atrair votos. Fica a impressão que menos importante do que a arte, o filme foi feito para glorificar seu protagonista e sua religião. E isso, no cinema, é um pecado mortal.