Geisel autorizou execução de pelo menos dois potiguares - Blog do Joabson Silva | Opinião e notícia

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14/05/2018

Geisel autorizou execução de pelo menos dois potiguares


Três dias depois da reunião em que o então presidente da República Ernesto Geisel autorizou as “execuções sumárias de subversivos perigosos”, o jornalista natalense Luiz Ignácio Maranhão Filho foi preso por agentes do Estado em uma praça pública de São Paulo e desapareceu. A prisão dele ocorreu em 3 de abril de 1974 e até hoje seu corpo não foi encontrado.

Destino semelhante teve o jornalista, ator e poeta caicoense Hiram de Lima Pereira, preso pelos órgãos de segurança em 15 de janeiro de 1975.

O nome dos militantes comunistas Luiz Maranhão e Hiram Pereira voltaram à tona depois que o Departamento de Estado dos EUA revelou um memorando, datado de 11 de abril de 1974, enviado pelo diretor da Agência de Inteligência Norte-americana (CIA) ao então secretário de Estado Henry Kissinger.

O documento foi trazido a público pelo pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Matias Spektor e confirma que a cúpula do governo brasileiro sabia dos assassinatos contra os opositores do regime militar. Até então, essa versão era negada oficialmente.


Dois presidentes

No memorando consta que, inicialmente, Geisel pediu para refletir sobre a questão, mas em 1º de abril de 1974, “informou ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que extremo cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados”. E exigiu ao Centro de Informações do Exército a autorização prévia do próprio Palácio do Planalto.

Ernesto Geisel governou o país de 1974 a 1979, quando passou a faixa presidencial para o general João Batista Figueiredo.

Luiz Maranhão e Hiram Pereira estão na lista dos 89 desaparecidos políticos oficiais da ditadura militar, a partir de 1º de abril de 1974, que nunca foram encontrados. O relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) diz ainda que 11 pessoas podem ter desaparecido ou morrido também a partir de abril daquele ano, mas as datas não foram esclarecidas.

Ao todo, foram confirmadas pela CNV 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar no país. Entre elas, 210 estão desaparecidas.

Mortes

O destino dos corpos dos militantes desaparecidos durante o regime militar vem sendo revelado aos poucos por colaboradores e agentes da ditadura. Há depoimentos registrados pela Comissão Nacional da Verdade confirmando as mortes de vários militantes, entre eles Luiz Maranhão Filho e Hiram Pereira.

O ex-sargento do Exército Marival Chaves revelou em 2012 que Hiran foi interrogado no centro de torturas e execuções, implantado clandestinamente pelo Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) em Itapevi, na Grande São Paulo, morreu sob torturas e teve seu corpo lançado em um rio próximo a Avaré.

Já o assassinato do jornalista Luiz Maranhão Filho foi trazido à tona, também em 2012, pelo delegado Cláudio Guerra, autor do livro “Memórias de uma guerra suja”.

Segundo ele, Maranhão foi barbaramente torturado e teve o corpo incinerado numa usina de açúcar, no Rio de Janeiro.

Impacto

O pesquisador da FGV Matias Spektor, responsável por trazer o documento que comprova a anuência de Ernesto Geisel em relação às execuções pelo regime, registrou sua perplexidade diante da informação:

– Este é o documento mais perturbador que já li em 20 anos de pesquisa.

A Agência Saiba Mais procurou o economista Roberto Monte, principal referência em Direitos Humanos no Rio Grande do Norte e maior pesquisador sobre registros da ditadura militar no Estado.

Para ele, na prática, o documento não muda muita coisa, mas é importante:

– O documento que veio à tona agora revela o que todo mundo já sabia, mas mesmo assim uma coisa é você ouvir dizer outra é saber que aconteceu de fato, por isso é importante. Agora em termos de novidades, as grandes informações vieram do (ex-sargento) Marival Chaves e do Cláudio Guerra, que contaram com detalhes o que aconteceu e ali fica patente a participação do Estado.

Rafael Duarte (Agência Saiba Mais)