'O que vocês veem na TV, eu vi pessoalmente', diz sírio refugiado no RN - Joabson Silva

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22/05/2018

'O que vocês veem na TV, eu vi pessoalmente', diz sírio refugiado no RN


Alepo, Síria, 2012. Moradores de um bairro residencial da cidade sentiram um forte tremor abalar as estruturas dos prédios. Em seguida, o estrondo. Toneladas de explosivos enterrados furaram o chão de baixo para cima, destruindo uma avenida e jogando para o ar alta cortina de poeira.

A uma quadra dali, dentro de uma barbearia, estava Mahmoud Darwish, que hoje tem 29 anos. “Fiquei com muito medo, as pessoas começaram a correr”, lembra. Há quase dois anos e meio vivendo em Parnamirim, na Grande Natal, ele encontrou no Rio Grande do Norte um porto seguro para se estabelecer e morar. Mahmoud partiu de seu país de origem por causa da guerra. “Isso tudo que vocês veem na TV, eu já vi pessoalmente”.

Atualmente, de acordo com a Associação Beneficente Muçulmana do RN, são três os sírios que vivem em solo potiguar. Todos têm visto e situação regular, e chegaram depois que a União facilitou a entrada dos refugiados da Síria.

O país árabe enfrenta uma guerra civil, em que o exército do governo luta contra resistências montadas por grupos de oposição. Dentre eles, existe o Estado Islâmico, organização terrorista extremista que tem atuação maior na Síria e tenta impor o monopólio de seu domínio pela força. Além disso, há ainda bombardeios na região realizados por outros países, que apoiam ou são contra o presidente Bashar al-Assad, como Rússia e Estados Unidos.

“Tem um avião que, só de passar por cima da cidade, quebra as coisas dentro de casa. A gente fica 'Meu Deus, que ele solte isso (bomba) longe daqui'. Vi crianças tremendo de medo, e ouvi falar que algumas delas morrem só do medo”, relata Mahmoud Darwish.

Quando chegou ao RN, ele arrumou emprego em um salão de beleza masculino, no bairro Nova Parnamirim, de onde tira o sustento. Ao chegar ao Brasil passou por São Paulo, dois meses, e teve uma breve estadia em Santa Catarina. Mas foi no Rio Grande do Norte que fixou base, no final de 2015.


A decisão de sair da Síria foi tomada depois de um conselho da mãe de Mahmoud. “Eu não queria deixar minha família lá, mas ela disse para eu sair”, conta. O medo dos familiares era de que ele fosse convocado para lutar na guerra. O jovem havia servido ao exército sírio entre 2008 e 2010, então era eminente a possibilidade. E a ordem chegou para os Darwish logo depois que ele partiu. “Na guerra, ou você tem que matar alguém, ou alguém tem que matar você. Eu não quero isso. Odeio qualquer pessoa que pegou uma arma e fez essa guerra. Eu só quero a paz”, justifica.

Antes de chegar em terras brasileiras, Mahmoud precisou ir para a Turquia conseguir as documentações para ingressar no Brasil. Segundo ele, na Síria o governo considera uma vergonha para a nação a debandada de seu povo, então não permite que os cidadãos procurem as embaixadas de outros países para fugir de lá.

“Vi na internet a propaganda que dizia que o Brasil abriu os braços para os sírios virem pra cá”. Além da campanha, Mahmoud diz que o que o fez escolher o Brasil como nova casa foi o futebol. Ele é fã de Ronaldo Nazário e sonha em conhecer o ídolo. “Sou muito fã dele. Eu sou louco por futebol, por isso fiquei muito ansioso para vir para cá. Um dia quero poder encontrar com Ronaldo Fenômeno”.

Profissão Barbeiro

Aos 13 anos de idade, Mahmoud Darwish aprendeu o ofício de barbeiro com os familiares. Ele diz que os parentes da mãe são todos cabeleireiros e os do pai mecânicos. “No meu país, as crianças começam a trabalhar cedo. Não para ganhar dinheiro, mas para aprender alguma profissão. Elas não deixam de estudar pra isso”, explica.

Na primeira semana em Natal, no dia em que saiu para procurar emprego, Mahmoud tomou um susto. Caminhava pela Avenida Maria Lacerda Montenegro com o celular em punho, para se orientar pelo GPS, quando foi abordado por dois assaltantes. Um homem e uma mulher, armados, se aproximaram em uma moto e levaram o smartphone. “Mas eu sei que os brasileiros não são assim. Eu gosto muito do povo brasileiro, vocês me acolheram. Sei que não é todo mundo que é assim por aqui”.

O susto precedeu uma boa surpresa. Na primeira porta em que bateu, encontrou uma oportunidade. A empresária Sofia Lima, dona de um salão de beleza na mesma avenida, deixou que Mahmoud cortasse o cabelo do filho de uma amiga para um teste. O corte foi aprovado e ele foi contratado. Na época não falava nada que não fosse árabe, e usava um tradutor no celular para se comunicar.

De lá até então já se passaram mais de dois anos. Mahmoud Darwish já conversa em português e conseguiu clientes. Alugou um lugar para morar, comprou móveis. Mas a saudade da Síria o inquieta à noite, quando está só.

Lá ainda moram um irmão, uma irmã e os pais do barbeiro. Mahmoud quer trazê-los para perto. Enquanto isso não acontece, segue mantendo contato com os quatro pela internet. “Tenho saudade da minha família, de sair com meus amigos para jogar cartas, sinuca. Tenho vontade de ir lá cheirar a terra do meu país. Tenho saudade do cheiro da terra do meu país… mas sei que agora, para mim, é quase impossível”, lamenta.

Outras histórias

Os outros dois sírios que se abrigaram no Rio Grande do Norte moram em Natal. Um deles não quis falar com a reportagem. Está há menos tempo na cidade e trabalha como soldador. O outro é Houchnk Foraki, cozinheiro de 54 anos de idade.

Este já havia morado em São Paulo, Mato Grosso e no Paraná nos anos de 1990, quando decidiu ficar depois de vir visitar um tio. Em 2007 retornou à cidade de Damasco, a capital síria, onde nasceu, com os dois filhos que teve por aqui. À época, o menino tinha seis anos de idade e a menina dois.

Em 2011, quando se acirraram os conflitos na Síria, Houchnck resolveu voltar ao Brasil, desta vez para Salvador. “Começou aquele problema lá na Síria, sabe? Eu tinha supermercado, uma fábrica de aço. E começou aquele problema, então caiu o movimento. Fechei tudo, porque eu sabia que isso ai demorar”, disse.

Desde então ele trabalha no ramo de alimentação. Seguiu para Natal depois que amigos que passaram pela capital baiana o chamaram. No Rio Grande do Norte montou um restaurante de comida árabe, o Aladim.

No entanto, a crescente da violência afugentou os clientes, e fez com que Houchnk fechasse as portas do estabelecimento na Zona Sul de Natal. Agora ele só atende via iFood e com outro nome: Aljasmin.

Passados esses anos, Houchnk Foraki disse que vai a Damasco, em breve, para tentar trazer os filhos de lá. “Mas eles não querem, amam a Síria mesmo com todos esses problemas”.

G1