Casos de machismo durante a Copa são alvos de investigação no Brasil - Joabson Silva

NOVAS

26/06/2018

Casos de machismo durante a Copa são alvos de investigação no Brasil


Os casos de brasileiros flagrados em ações de machismo e assédio contra mulheres russas ganharam grande repercussão ao longo da Copa do Mundo da Rússia. No Brasil, os episódios vêm recebendo, por vezes, mais atenção que os próprios jogos do torneio. Nas últimas duas semanas, foram registradas três situações em que mulheres estrangeiras, em vídeos compartilhados pelas redes sociais, são levadas a repetir palavras em português de baixo calão, sem que estas saibam o real significado do que é dito.

No Brasil, o Ministério Público Federal do Distrito Federal abriu procedimento para investigar os episódios de machismo. Os brasileiros flagrados nos vídeos podem ser denunciados por injúria. A investigação partiu de um vídeo em que se mostra torcedores brasileiros gritando para uma mulher russa frases em alusão à cor de órgão sexual feminino.

Para o advogado Murillo Barros Júnior, especialista e professor em direito internacional, o ato de assédio e de coação é passível de punição em território russo. “Aberto inquérito na Rússia, eles podem ser julgados e condenados. Gerando uma ação penal, os brasileiros podem ser obrigados a pagar multa, banidos ou mesmo presos por um determinado período”, explica ele, que também é o presidente da comissão de relações internacionais da Ordem dos Advogados no Brasil da seção do Rio Grande do Norte (OAB).

Mesmo distantes dos locais em que têm residência, o jurista reforça que os torcedores podem ser, sim, punidos. “Pelo princípio da ‘nacionalidade’, é exigido que se cumpra a lei do Brasil em terras estrangeiras, como é o caso destes torcedores. O Brasil imputa como crime contra a mulher o assédio e a coação. Com isso, é exigido que as leis do nosso país sejam respeitadas pelos cidadãos brasileiros em terras estrangeiras”, detalha.

O advogado acompanha a situação diretamente de terras russas. Por lá, longe dos ternos e dos tribunais, ele é mais um torcedor da seleção brasileira. Murillo foi entrevistado pelo Agora RN, por telefone, na cidade de São Petersburgo, onde o Brasil enfrentou a seleção da Costa Rica na última sexta-feira, 22. “Esta situação [os atos de assédio dos torcedores] só é comentada entre os próprios brasileiros. Os russos não comentam sobre isso. Não vi nada nos veículos de imprensa, seja a imprensa escrita ou fala”, avalia.

Ainda de acordo com o advogado, mesmo com o procedimento aberto pelo Ministério Público Federal, os torcedores podem chegar a não ser punidos ao desembarcarem no Brasil. “A defesa dos torcedores podem alegar o princípio da territorialidade, pois o crime não foi cometido no nosso país. Com isso, acredito que muitos destes torcedores, após a grande repercussão do caso, já tenham até voltado para o Brasil”, diz.

Em Moscou, defensores dos direitos da mulher abriram petição pública para criticar a conduta dos brasileiros. Ainda não há denúncias formais, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. O Código de Ofensas Administrativas da Rússia prevê punição em casos de ofensa à honra e à dignidade da pessoa sob a forma de insultos indecentes. O delito pode ser punido com uma multa de vai de mil a três mil rublos (o equivalente a R$ 58 a R$ 175).

“Entre os brasileiros que estão por aqui, os comentários abordam o exagero da repercussão nas redes sociais e imprensa. Eu acho que foi uma ação reprovável, e isso foi feito por pessoas maduras. É inadmissível este tipo comportamento”, reforça Murillo Barros Júnior.

Dias na Rússia

Ainda na cidade São Petersburgo, após acompanhar a primeira vitória brasileira na Copa, o advogado analisou a estadia em terras russas. “A Rússia passa por um período de abertura, após anos fechados pelo regime comunista. As pessoas são bem desconfiadas, principalmente os mais velhos. Quase ninguém fala a língua inglesa. Só alguns jovens falam o inglês”, diz.

Um dos grandes problemas para os torcedores estrangeiros é a sinalização turística e de trânsito: as placas são escritas em cirílico, o alfabeto russo. “Agora, com a Copa, alguns pontos turísticos trazem placas em inglês. Mas é muito difícil se deslocar pelo país”, reclama.

Ainda sobre o país, ele elogia a beleza das construções e das paisagens naturais. “A impressão que tenho dos países pós-comunistas é que continuam mergulhados em atraso econômico e social, mas, culturalmente, eles são ricos. É bom ver que as pessoas estão experimentando a democracia”, finaliza.