Médicos ganham salários de jogador de futebol e têm passe milionário - Joabson Silva

NOVAS

18/06/2018

Médicos ganham salários de jogador de futebol e têm passe milionário


Um grupo de adolescentes está na calçada do hotel Tivoli, no bairro nobre dos Jardins, em São Paulo. Usam faixas na cabeça em que está escrito Neymar e gritam o nome dele a cada vez que alguém sai pelas portas da recepção — mesmo sem que ninguém seja o jogador, que está hospedado ali com a Seleção Brasileira.

“Eles nunca fariam isso por um médico, por mais que o salário dos dois um dia seja o mesmo”, ri uma das maiores neurologistas do Brasil, que marcou um café com a GALILEU num restaurante do outro lado da rua para discutir um fenômeno no mercado da saúde: o surgimento dos supermédicos, cujos passes são disputados por hospitais e que são contratados por milhões de reais, algo antes só pensado para os atletas mais famosos do mundo.

A discussão sobre o poderio dessa classe explodiu com a mudança de emprego do oncologista Paulo Hoff, 49, que trocou o Hospital Sírio-Libanês pela Rede D’Or São Luiz no final de julho do ano passado. O colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, noticiou que a transação havia custado R$ 50 milhões de luvas, uma espécie de bônus inicial pago quando o contrato é assinado (uma realidade também no mundo dos boleiros), além de um salário mensal na casa de R$ 1 milhão. Para efeito de comparação: em 2017, o Palmeiras investiu R$ 115 milhões em contratações — seria, portanto, o suficiente para adquirir só dois médicos com essa tarimba em um ano inteiro.

Hoff veio a público horas depois para negar os valores. Emitiu uma nota para a imprensa afirmando que se tornou sócio minoritário do maior grupo de saúde privada do Brasil — a Rede D’Or São Luiz está presente em sete estados do país com 35 clínicas de oncologia e 37 hospitais.

Pessoalmente, o doutor-Neymar não tem a extravagância estética do jogador do Paris Saint-Germain. Às nove horas da manhã de uma sexta-feira, veste um blazer azul-marinho, com abotoaduras douradas em cada manga, e uma camisa listrada aberta até o segundo botão. É informal e sorri com facilidade. No dia anterior, havia assistido a uma palestra do ex-presidente Barack Obama na capital paulista, da qual conta ter saído impressionado.

“O que me foi oferecido foi a possibilidade de fazermos um grande projeto para o câncer para o país todo. Isso foi muito importante. Pode parecer que é da boca para fora, mas não é, tenho feito isso desde 2007 com o SUS.” Isso porque, além de atuar no hospital Sírio-Libanês pelos últimos dez anos, Hoff também é diretor-geral do Icesp, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, maior serviço oncológico do Brasil, 100% público. “Dentro da rede eu vou poder ajudar a desenhar protocolos de tratamento que vão mudar a vida de muitas pessoas.” E vai poder aumentar a sua fatia na sociedade, caso se saia bem. Demanda não deve faltar: estima-se que um em cada cinco brasileiros deva desenvolver algum tipo de câncer até os 75 anos de idade.

O trabalho já começou. Hoff supervisiona a instalação de um hospital geral com foco em oncologia no Itaim Bibi, em São Paulo, a adaptação de um setor de câncer dentro da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, e a implantação da área de oncologia em um hospital de Brasília, que deve ficar pronto nos próximos meses.

“Eu tive o cuidado de avisar todos os meus pacientes ativos, os meus colegas médicos. Vi com muita naturalidade a minha mudança de emprego”, diz ele. No momento da entrevista, fazia menos de dez dias que havia transferido seu consultório no bairro da Bela Vista, onde tratou o ex-presidente Lula e o ator Reynaldo Gianechinni, entre outros famosos, para o Itaim Bibi, onde fica o novo hospital que dirige.

A rotina pouco mudou. De manhã, até meio-dia, toca as questões administrativas do Icesp. Durante o horário do almoço, encontra-se com a equipe. Às 14 horas, começa a atender pacientes, tanto os que estão internados quanto os do consultório. As consultas vão até 19 horas — pelo menos em teoria. “Às vezes, 7 da noite viram 9 da noite. Ou meia-noite.” Entre um paciente e outro, ele cuida das questões da diretoria da rede privada. Ao sair da empresa, ainda vai a eventos sociais — que, no fundo, são relativos ao trabalho. “Isso é muito comum para todo executivo, usar o horário do almoço e do jantar para resolver pendências do trabalho.”

Valor de mercado

Mas o que leva um profissional da saúde a conquistar um contracheque parecido com o de uma estrela de novela? “Ser conhecido é importante. Menos do que fazer pesquisa, é claro, mas é importante”, explica a economista Katherine B. Schulz, que estuda a dinâmica do mercado médico na Universidade Harvard. “Não são só os pacientes famosos que esse médico vai ter com ele. São todas as pessoas que sonham em se tratar com ele. Médicos também exercem um poder de atração de mercado, além de servirem para validar um estabelecimento médico como sendo de ponta com sua reputação.”

Entre alguns membros do panteão da medicina nacional corre uma anedota: entra para a Seleção Brasileira de Medicina quem chega ao horário nobre da televisão. Um bom termômetro para saber o grau de reconhecimento é o programa matutino Bem Estar, da Rede Globo. “Eles só chamam os melhores médicos do Brasil para participar. É um sinal de status estar lá”, diz a neurologista de elite, que pede para não ser identificada. Paulo Hoff não só participa do Bem Estar como já esteve no Mais Você, de Ana Maria Braga, e em outros programas.

E o que um médico sente ao ocupar um espaço geralmente dedicado a artistas? “Eu tenho uma vida de produção científica. Prefiro ser julgado pela minha produção acadêmica”, diz Hoff, com a seriedade de quem dá diagnósticos difíceis com frequência há três décadas. Assim como o boleiro que prefere só versar sobre o que acontece no campo, o oncologista passa uma hora falando sobre câncer sem problema, mas parece se sentir fora da quadra quando o assunto vai para sua celebridade.

O paranaense se formou na Universidade de Brasília, de onde seguiu para o MD Anderson Cancer Center, a meca do tratamento e da pesquisa de câncer na cidade norte-americana de Houston, no Texas, onde cerca de 100 mil pacientes são atendidos por ano. Sua carreira cresceu lá dentro, até que se tornou um dos maiores especialistas na doença. Voltou ao Brasil em 2006, para ser diretor da oncologia do Sírio-Libanês.

Caso o valor noticiado pela mídia para sua ida para a Rede D’Or se confirmasse e o doutor estivesse pesando cerca de 100 quilos (“Estou com sobrepeso, o que não é obesidade, essa sim um fator de risco para o câncer”, brinca durante a conversa), ele valeria mais do que seu peso em ouro: seriam R$ 50 milhões contra R$ 13,1 milhões do seu peso em ouro, na cotação de R$ 131 por grama. É um superlativo até para os melhores médicos do país. Profissionais ouvidos pela reportagem narram que um diretor de área em hospital de elite ganha por volta de R$ 50 mil mensais, mais os valores das consultas — a com o doutor Hoff custa R$ 1.000, e não há agenda pelos próximos meses.

A empresa contratante não poupa elogios à recente conquista. “O dr. Paulo Hoff se uniu à rede para oferecer excelência no tratamento oncológico a diversas camadas da população dentro do segmento de saúde privada”, diz Paulo Moll, vice-presidente da Rede D’Or São Luiz. Para ele, a capacidade de atendimento e de tratamento do câncer será ampliada em função da presença de Hoff, “tanto nos hospitais premium quanto nas unidades que aceitam planos de saúde mais básicos, democratizando, assim, o acesso aos melhores profissionais, protocolos e tratamentos”.

Já o hospital que perdeu o profissional prefere o silêncio. “Não consigo responder sobre isso não”, diz Roberto Kalil Filho, presidente do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, diretor de cardiologia do Hospital Sírio-Libanês e possivelmente o médico mais poderoso do Brasil.