Além das câmeras: jornalistas brasileiras relatam assédios sofridos durante cobertura da Copa - Joabson Silva

NOVAS

02/07/2018

Além das câmeras: jornalistas brasileiras relatam assédios sofridos durante cobertura da Copa


Casos de assédio a jornalistas mulheres viraram rotina na Copa do Mundo na Rússia. Nos últimos dias, viralizaram na internet imagens de duas profissionais brasileiras tendo de se desvencilharem de tentativa de beijos de homens enquanto faziam seu trabalho. Aconteceu com a repórter Júlia Guimarães, da TV Globo, e com Laura Zago, repórter da CBF. Os episódios não foram isolados e também ocorreram longe das câmeras, com outras mulheres brasileiras.

Segundo relatos de jornalistas que estão cobrindo o Mundial na Rússia, a violência já ocorreu desde a atuação ao transporte no país da Copa. Foi o caso da repórter Gabriela Montesano, que está produzindo um documentário sobre a participação das mulheres na Copa. Ela descreveu os momentos de tensão vividos durante uma viagem de trem de São Petersburgo a Moscou, após acompanhar a vitória do Brasil sobre a Costa Rica, pela segunda rodada da fase de grupos. O relato é assustador.

– Peguei o trem Fifa das 22h, chegaria às 6h, peguei uma cabine com uma vietnamita e um jovem russo, cerca de 20 anos. Ele falava inglês, algo raro aqui, passamos a conversar mais, porque gosto de conhecer as pessoas. Mas acho que ele pensou que tinha mais liberdade do que deveria. Começou a vir mais na minha cama, mais perto de mim, até que eu estava um pouco incomodada, e também cansada, e disse que precisava dormir – contou Gabriela.


– Ele disse que tudo bem, mas precisava se trocar. Só que não iria ao banheiro porque não tinha vergonha nenhuma de se trocar na minha frente. Falei para ele ir ao banheiro, mas ele tirou a roupa na minha frente, ficou pelado. Eu virei e ele ficou lá se trocando, tirou toda a roupa. Aí dei boa noite, sem saber como reagir. A moça da cabine estava dormindo, a cabine fechada, eu não sabia o que fazer. E ele veio deitar na minha cama. Eu fui tirando ele, mandei ele ir embora, e ele foi dormir na cama de cima da minha. E eu não dormi muito bem, porque fiquei pensando que ele poderia vir de novo;. Não foi nada agradável – completou a jornalista, ex-assessora de imprensa do Osasco Audax, clube de São Paulo.

Os transtornos se estendem aos mais variados locais. Soraya Belusi, editora dos jornais O Tempo e Super Notícia, de Belo Horizonte, passou apuros durante a produção de uma matéria em um shopping em São Petersburgo e teve de recorrer à polícia.

– Fui ao supermercado do shopping para fazer uma matéria sobre caviar. Estava entrevistando duas russas, enquanto eu entrevistava, um homem ficava mandando beijo, fazendo gestos. Eu fiquei meia hora tentando me desvencilhar desse cara e só consegui quando chamei a polícia para interferir, porque ele não deixava eu fazer meu trabalho. Ele ficava berrando, mandando beijo – descreveu Soraya.

– Isso não aconteceria com um homem, ele não interferiria no trabalho de um homem, principalmente mandando bejinho. Eu tentei comunicação com ele, xinguei, falei, e só parou com a polícia. E além do meu constrangimento, teve o constrangimento das duas entrevistados. Uma conversa que era para durar dois minutos durou 30. O policia saiu com ele até a porta do shopping – completou.

As jornalistas mulheres são minoria na cobertura da Copa do Mundo. Uma rápida observação em qualquer centro de mídia dos estádios na Rússia é suficiente para notar a escassez de profissionais femininas, como já acontece no Brasil. Isso é retrato do ambiente machista que ainda permeia o futebol e traz divergências na atuação e análise do trabalho.

Segundo Soraya, já começa pelos próprios companheiros de profissão. Ela conta do tratamento que recebe de alguns jornalistas homens.

– Às vezes os próprios colegas se interessam mais pela nossa estética, se somos bonitas, do que pelo nosso trabalho. Um caso foi em uma coletiva da Seleção, fiz uma pergunta e depois vieram muitos falarem para mim que minha pergunta tinha sido inteligente, boa. Ora, como se não fosse o normal e o dever fazer uma pergunta inteligente. Duvido que falariam isso para outro homem – desabafa.

Também houve outro caso com quem acompanha a fundo o ambiente da Seleção Brasileira. Foi com Monique Danello, repórter do canal Esporte Interativo que vem seguindo o Brasil na Rússia. Ela faz a cobertura com a cinegrafista Carolina Albuquerque e no último sábado se deparou com uma situação desagradável durante uma gravação em Sochi, onde a Seleção fez base.


– Estava entrando ao vivo na porta do estádio, enquanto eu me preparava, surgiu um torcedor do nada pra tentar me beijar. Ele acabou se assustando com a minha reação e logo saiu de perto – afirmou Monique, que cita a preocupação das mulheres em exercer seu trabalho no Mundial.

– Tenho acompanhado um pouco o que aconteceu com outras colegas, são situações muito lamentáveis. Acho que, aqui na Rússia, a mulher está longe de ser tratada com respeito. Eu e Carol já vimos vários russos de risinho, ironizando, quando estamos na rua trabalhando – declarou a repórter carioca.

Situações de assédios também ocorrem constantemente com torcedoras na Rússia e já foram protagonizadas por brasileiros. Vídeos de homens coagindo russas a falarem palavras obscenas também tomaram as redes e chamaram a atenção de ativistas do país. Medidas práticas, porém, passaram longe. O governo, no geral, tem feito vistas grossas à questão.